segunda-feira, 27 de julho de 2009

NEOCLASSICISMO E ROMANTISMO: GÉNESES DIFERENTES?


O séc. XVIII é um século de revolução intelectual. A par do que acontecia na filosofia e na teoria política, a crítica de arte e a história da arte sofrem uma evolução na sua metodologia e objectivos. A tomada de consciência da civilização europeia veio pôr em causa a sua identidade. Ela era fruto de um passado greco-latino ou de uma civilização medieval? Esta questão veio a traduzir-se em dois movimentos artísticos. No fundo, estava subjacente a ambos um mesmo espírito, desejoso de novidade e de apresentar propostas alternativas à tradição barroca. O retorno ao passado longínquo significava assim a consumação da ruptura total com o rococó , explicando a necessidade de recorrer a "revivalismos", não tanto por razões artísticas quanto teórico-filosóficas.

Se o neoclassicismo define toda uma atitude mental, o romantismo não lhe fica atrás. Por outro lado, ambos nascem quase simultaneamente, embora um só se desenvolva plenamente no séc. XIX (o romantismo), o que torna difícil estabelecer barreiras temporais absolutas. Alguns autores consideram o neoclassicismo como um elemento episódico. Não cremos que tal seja totalmente verdade. Ele será mais um ponto de chegada de um caminho que a Europa percorria desde o renascimento, enquanto que o romantismo (na sua acepção mais lata) poderá ser tomado como um ponto de partida para uma nova etapa. Marcada pela filosofica das luzes, a procura da ciência e simultaneamente do irracional, a fidelidade aos antigos e as visões utópicas, o desejo de um retorno à simplicidade primitiva e o nascimento da era industrial, a criação artística dos finais do séc. XVIII e dos princípios do séc. XIX será unificada por uma poderosa renovação, contudo marcada pela violência dos contrastes e da variedade das experiências.

Friedrich Schlegel foi o primeiro a empregar os termos "clássico" e "romântico" para caracterizar a divergência que se fazia sentir no campo artístico e da teoria da arte. Sinteticamente, pode caracterizar-se o neoclassicismo como apreciador da perfeição, do acabado; e o romantismo, por seu lado, favorecendo a ideia de infinito e do subjectivo, na medidade em que procura mostrar o que é misterioso e inexplicável na vida do espírito e da natureza. Isto explica em parte as novas perspectivas que o romantismo abrirá no campo das relações homem-natureza, estabelecendo um verdadeiro culto da paisagem, do selvagem, do exótico e do natural.

Embora os dois movimentos desenvolvam uma grande simpatia pelo passado, o neoclassicismo é que se prende mais com os sues ideais. De facto, ele foi moldado pelo desenvolvimento que a arquitectura levou até aí, pelas grandes viagens de exploração à Grécia e pelas expedições arqueológicas em Itália e, finalmente, por uma sistemática recolha de documentos,... enfim, todos estes aspectos contribuindo para restaurar a arte clássica.

De facto, pode dizer-se que o neoclassicismo é, sobretudo, uma arte assente na arqueologia e no estudo directo das fontes clássicas. Assim, o neo-palladianismo, como "revivalismo" duma já interpretação da arte clássica elaborada por Palladio no renascimento, não se pode comparar com o denominado "estilo dórico", este sim considerado como a verdadeira essência do neoclassicismo. Contudo, o neo-palladianismo é animado pelo mesmo espírito que anima o neoclassicismo; apenas foi uma etapa introdutória, que a própria Inglaterra soube ultrapassar com os irmãos Adam.

Por seu lado, o romantismo prende-se a aspectos mais gerais, que se situam num campo sobretudo mental: o individualismo, a intuição da vida subjectiva e a intensidade vivente. Seguindo este raciocínio, pode dizer-se que o neoclassicismo surgiu de uma necessidade de se quebrar com a tradição cultural e artística anterior; o espírito subjacente, com poucas alterações, serviu-se primeiramente de umr ecurso ao passado antigo; depois, a evolução das descobertas nos outros campos do conhecimento, e portanto das mentalidades e das sensibilidades,, levava a que o recurso à arte antiga ficasse ultrapassado. Sucedeu-lhe uma fuga para a Idade Média, mas o mais importante foi o facto do espírito romântico ir tomar forma aos poucos, manifestando-se com tanta força e autonomia que era impossível permanecer parado.
Ou seja, o mesmo espírito que deu azo ao neoclassicismo acabou por o "trair". É sabido que o neoclassicismo continuou a exercer as suas influ~encias durante muito tempo na arte europeia, mas a partir de uma certa altura as inovações artísticas e literárias estariam já seguindo outro rumo. O neoclassicismo ganhou um grande desenvolvimento em França, facto que em parte pode ser explicado pelo fenómeno revolucionário e depois imperialista e pelo culto napoleónico, bem como o academismo. Em certa medida, o retardamento do romantismo naquele país deve-se a tal. Simultaneamente, nasciam fora de França indícios de outro movimento: os exemplos de Goya na Espanha ou de Füssli (suíço) e de Blake na Inglaterra, etc.
Concluindo, pode dizer-se que o novo espírito que informou a arte nascente na segunda metade do séc. XVIII assentava numa fuga para o antigo, para a natureza, para o sentimento e o sobrenatural. Os movimentos que dele surgiram tomaram, depois, caminhos separados.